domingo, 19 de outubro de 2014

Entrevista com Cacá Amaral, idealizador do projeto Rumbo Reverso (SP)

Essa semana entrevistamos o Rumbo Reverso (SP), um dos projetos nacionais mais interessantes e criativos na atualidade - extremamente rico em linguagens e timbres - encabeçado por Cacá Amaral que é antes de tudo um pesquisador/artista sonoro. O Rumbo Reverso vem cavando bastante espaço no underground nacional se apresentando ora como duo, ora como sexteto, quinteto, trio.. Realmente a ideia do projeto é buscar uma liberdade com foco em shows únicos, recheados de momentos de suspensão e improvisos.

Recentemente o Rumbo Reverso lançou seu primeiro disco que saiu em LP e teve uma ótima aceitação para download na Holanda (ultrapassando 5 mil downloads na semana do lançamento) com importantes apresentações ao vivo no SESC Pompeia e com a Banda Sinfônica do Conservatório Municipal de Guarulhos chamando bastante atenção pelo formato e pela estética sonora e experimentos no palco.

Para a coletânea vamos voltar um pouco e apresentar uma música gravada em 2010 quando o projeto estava mais ou menos no início com a ótima faixa "Retículo Endoplasmático Rugoso". Conversamos com Cacá pelo facebook e por e-mail, com vocês Rumbo Reverso!



Como foi sua formação musical e as primeiras bandas da qual fez parte?

RR - Comecei a tocar com 13 anos, por influência do meu irmão mais velho, ouvia muito Pink Floyd, Hendrix e todas aquelas bandas clássicas dos anos 70 . Um dia meu irmão trouxe uma bateria para casa e eu passava o dia inteiro tocando escondido enquanto ele saia pra trabalhar. Depois de um tempo, montei minha primeira banda com amigos da rua e do colégio, tocávamos punk tipo Sex Pistols, Ramones e Stooges. Acabei ganhando a bateria do meu irmão.


O Naaxtro tem um papel importante nessa tua trajetória, como surgiram esses projetos?

RR - O Naaxtro foi praticamente a minha escola musical, tínhamos uma banda de rock de músicas com letras, arranjos bem formatados e tudo mais, mas passávamos muito tempo improvisando nos ensaios. A partir de 2009 passamos a nos apresentar em lugares do underground de SP, com Eloy Figueiredo na Guitarra, Leandro Archela nos teclados, Iládio Davanse no baixo e Daniel Gralha no trompete, mais tarde entrou um sax barítono, Cuca Ferreira. Em 2012 após 4 shows na gringa demos uma parada, parecia que não íamos mais retornar, estávamos ensaiando semanalmente, mas somente pra desenvolver o intuitivo e pesquisar timbres já que isso sempre foi um interesse comum de todos da banda. No início de 2014 o Daniel Gralha (trompetista), propôs que retomássemos o trabalho com a mesma formação, exceto o guitarrista Eloy Figueiredo que está no Rio de Janeiro trabalhando num projeto de áudio visual próprio.


Quando e como surgiu a ideia do Rumbo Reverso, as influências desse trabalho específico e o significado do nome?

RR - Me tornei um obsessivo por instrumentos e timbres, e comecei a fazer minhas primeiras experiências com gravação em um banheiro do apartamento onde eu moro. Eu subia no MySpace ou mostrava para um grupo restrito de amigos, foi daí que surgiu o embrião do Rumbo Reverso. É difícil falar em influências porque tenho várias, mas sempre gostei muito de Coltrane, Miles e de toda aquela psicodelia dos anos 60 e 70...




A experiência lo-fi de gravação é bem marcante no início do Rumbo Reverso, você gravava tudo sozinho? Quais os intrumentos que você gostava de experimentar nessas gravações?

RR - A experiência lo-fi me fez descobrir novos timbres e principalmente foi importantíssima para o desenvolvimento do meu trabalho de composição, me fez enxergar a música de forma mais ampla, prestar atenção muito mais no conteúdo musical do que na forma em si, acho que nos anos em que as gravadoras reinavam existiam certos padrões de gravação que hoje já não se sustenta, não vou negar que também adoro equipamentos analógicos e valvulados e que uma boa mesa, compressores e gravadores de fita são demais, mas dentro do universo lo-fi, pode-se encontrar timbres e frequências verdadeiras e orgânicas, inclusive, isso pode vir a ser o fio condutor de um trabalho artístico muito foda. Já ouvi bandas que soaram muito melhor numa produção caseira que num estúdio parrudo, sem falar dos custos artísticos, que permite que a galera que não tem grana possa produzir usando a criatividade. Acho incrível ver a molecada sem grana ir a desmanches de eletrônicos pra retirar componentes das sucatas, tais como microfones condensadores de câmeras antigas pra usar no seu trabalho de gravação. Explorar o som de salas não tratadas, como banheiros e estacionamento de prédios pode gerar um reverb único e ser a tônica de um trabalho artístico, isso sem contar a volta dos gravadores em fita cassete.


O projeto tem alguns vídeo-clipes gravados, como funciona a relação audiovisual na sua atual produção?

RR – Sim, tem alguns vídeos gravados, alguns registros de shows e alguns experimentos meus. Meu amigo Eloy Figueiredo sempre levava os sons ainda no rascunho e montava algo e me presenteava com um vídeo bacana. O último que ele fez foi com a música “o outro” e que pode ser visto no canal do Rumbo Reverso do Youtube e no Vimeo do próprio Eloy. A outra parceira visual foi com a Fernanda Cirelli que fez o video da música “palinkas” com uma equipe de amigos usando um figurino de máscaras em que ela mixa imagens de cinema com imagens próprias dirigidas por ela mesma, em uma citação ao pelo filme Naked Lunch do David Cronenberg e outros Diretores de cinema que influenciam. Vale muito a pena ver o resultado desse trabalho que também está no Youtube do Rumbo Reverso e no Vimeo da Fernanda Cirelli, onde também é possível acompanhar o trabalho dela. O outro cara é o Dimitri Lima que me convidou pra tocar no epicentro cultural nas projeções dele e eu adorei e retribuí convidando ele pra projetar no SESC Pompeia no show do Rumbo. Eu tenho algumas ideias pra projeções no show que eu pretendo fazer pra 2015, vamos ver…




O projeto começou com gravações no banheiro-estúdio que você tem em Guarulhos e agora já vem tocando bastante em lugares com boa estrutura, como você vê essa experiência?

RR – Bom eu tô adorando tocar nesses lugares, quero continuar tocando no SESC , teatros e outros lugares bacanas que oferecem uma infra-instrutura pra músico e público, mas não vou deixar de fazer shows intimistas pra 10 pessoas nas casas de cultura e inferninhos underground espalhados pelo Brasil. Acredito que o trabalho de uma banda hoje é de formiguinha mesmo, tocando, fazendo com que o trabalho chegue ao maior número de pessoas e lugares diferentes e não há outra alternativa a não ser sair tocando por aí, conhecendo essas pessoas e conhecendo esses lugares.



Quais outros projetos/músicos de São Paulo ou nacionais você vem acompanhando?

RR – Acompanho o trabalho de várias pessoas, inclusive, aí de Recife, vou tentar citar alguns... Dmingus, Zeca Viana, Hutmold, Baoba Stereo Clube, Bodes e Elefantes, Hab, Juliana R., Radio Lixo, Inky. Bonifrate, Supercordas, Acapulco Drive-in, Raquel Krugel, Objeto Amarelo, Pássaro Homem, Naaxtro e Firefriend.


O que podemos esperar do futuro do Rumbo Reverso, planos de tocar em outras cidades?

RR - Estou fazendo o segundo disco do Rumbo Reverso, em casa pra tentar gravar no início de 2015. Estou gravando um single com o Firefriend e tocando bastante ao vivo com o Naaxtro...


Recife Lo-fi Volume IV

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Matheus Mota (PE) lança o novo álbum "Almejão" e participa da coletânea com uma versão da música "Energias Positivas".

Matheus Mota - sem sombra de dúvidas - acaba de lançar o melhor disco pernambucano de 2014. Feche o facebook, desligue seu celular, escute o álbum por alguns minutos e tire suas próprias conclusões. Essa peça rara se chama "Almejão", um álbum cristalino, criativo, verdadeiro, limpo e gravado praticamente em casa. Limpo de tudo, de cenas, de lugares, de cara limpa.

Esse é um daqueles álbuns que chamamos de obra e como tal o seu tempo-lugar parece estar no futuro, um ainda "não-ser", um público/mídia que ainda parece não estar no mesmo lugar que ele - e talvez por esse motivo - o lançamento feito essa semana vá ecoar como os bons discos. Conversamos com Matheus via facebook e - para nossa surpresa - ainda não saiu sequer uma matéria impressa do álbum em Recife. Esperemos então o álbum se mostrar aos poucos. Para a coletânea Matheus gravou uma versão exclusiva de "Energias Positivas". Com vocês Matheus Mota.




  • - Matheus, conta um pouco, como surgiu a coisa da música na tua vida?
  • Matheus Mota
    Matheus Mota  eu tive sorte de ter aula de música na escola, o colégio nóbrega. acho que desde a alfabetização até talvez a segunda série primária. dessa época me despertou - mais ainda - o interesse por aqueles sons inusitados que tocavam nas bolachas da minha sala. daí com 9 anos ganhei um teclado e passei a estudar por conta própria. compor só comecei em 2004 com 17 anos.

  • Coquetel Molotov 2013
    Coquetel Molotov 2013
  • - Como foram tuas primeiras gravações, foi mais ou menos por essa época, 2004?
  • Matheus Mota
    Matheus Mota  eu compunha canções num piano de uma tia, no bairro dos aflitos. meu teclado estava desmontado. na época eu era muito ligado em física, dava aulinhas pra descolar um troco. e destruí o unico teclado que tive, então nao podia gravar. descobri a possibilidade de se gravar discos inteiros com dois nomes da música gaúcha "internetal"... 'os_nerds' e 'the ircers'. eles plugavam a guitarra e o baixo diretamente na placa de som dos seus pentium 2 e programavam baterias midi no guitar pro. nao havia vst nem nada disso, pelo menos não tínhamos acesso a isso. entao eu já gravava versoes de beatles em 2003, publicava em canais do mirc. em 2005 ou 2006 "afrouxei" minha torneira de criação, e gravei 5 discos com 10 músicas cada. evidentemente que boa parte era porcaria, mas isso me ajudou a ajustar o foco.

  • E as primeiras apresentações, foram no formato one-man-band?
  • Matheus Mota
    Matheus Mota  sim... eu fiz duas apresentações em 2009. uma em maio em são paulo, no hall do colégio marista vila mariana, acompanhado do amigo gabriel stern. e no segundo semestre, talvez em agosto, abrindo para zeca viana no boratcho, com canções que formariam o meu primeiro ep 'volta ao mundo de bicicleta'. eu havia recém saído da banda malvados azuis. acho que ensaiamos uns 3 meses mas nunca fiz show com eles.
  • - Então desde o começo você esteve atento nessa ponte-aérea Recife / São Paulo, o que marca também a tua presença na música independente nacional. O que São Paulo representa na tua trajetória?
  • Matheus Mota
    Matheus Mota  à medida que eu fui ganhando 'independência' do mundo, ganhando meu dinheirinho com publicidade e me formando no curso de comunicação percebi o pouco espaço que tinha enquanto iniciante em recife. haveria de 'provar' coisas como todo iniciante tem que fazer, a galera meio que nao acredita de primeira. e fiz essas peregrinações a sao paulo mais a título de pesquisa e viabilizar meus projetos. compus e lancei meu primeiro disco aqui, pelo selo cloud chapel, e estou finalizando o segundo da mesma forma. tenho amigos e raízes aqui há muitos anos. existem interesses pontuais no tipo de sonoridade que eu pesquiso e por incrivel que pareça com pouca associação com a vanguarda paulista. chego em recife, a primeira coisa que dizem é 'itamar assumpção'. isso tem diminuido de 2 anos pra cá, recife tem aos poucos firmado cenas mais independentes, abertas para o lo-fi e tudo mais; porém lutar contra a estrutura, o que as casas de show e os grandes produtores julgam como 'que vende' ainda é uma labuta. pretendo investir muito em recife ainda. pouco a pouco consigo realizar coisas aí, como é o exemplo do meu querido grupo varal.


  • - Como é a tua relação com a produção audiovisual?
  • Matheus Mota
    Matheus Mota eu tive um grupo de filme amador, a bafo movies, no inicio dos anos 2000. fiz muitos curtas e até um longa nunca lançado. entao desde 99-2000 eu edito em programas, foi o que acabei fazendo mais na vida. edicao pra publicidade e cinema. mas desde 2004 me afastei da produção de vídeos. tenho o plano de retomar isso em 2015, estou me reequipando e assistindo muitos filmes. acho que minha música tem muita relação com uma estética de vídeo, televisão e mais recentemente com cinema. essas pesquisas estão bem evidentes no 'almejão'.
  • - Fala um pouco sobre a canção "Energias Positivas"
  • Matheus Mota
    Matheus Mota é a última música de fiz. ao longo de 2013 só compus umas duas músicas - dedicado à banda e aos arranjos do disco. tenho muito carinho pelo momento que eu fiz essa música, definiu uma fase nova pra mim esse ano, mais centrada, otimista e realista. dedicada pra minha namorada que faz backing vocal nela.

  • - Você participou da primeira edição do Recife Lo-fi, assim como D Mingus, Rama, isso já faz quatro anos. O que você acha que mudou de lá pra cá?
  • Matheus Mota
    Matheus Mota conheci e pesquisei mais possibilidades musicais. fiz pequenas parcerias, gravei nos discos dos amigos e tb incentivei outros. pessoalmente o recife lo fi foi importante para me deixar mais unido com os músicos do meu bairro, o derby. que coincidentemente foram os que mais me identifiquei, os citados na pergunta.

  • - Inclusive o nome Cena Beto surgiu de uma reunião no Derby sobre a O.N.I. Qual a tua relação com essa atual movimentação na cidade?
  • Matheus Mota
    Matheus Mota  eu prefiro pensar o que sempre foi, uma designação para um momento de movimentação de todos, sem paredes e nem destaques desiguais. me dou bem com todos e já toquei com quase todos. frequentei o bairro de areias bastante, entre 2007 e 2008, porque o estúdio era barato e eu queria gravar um disco de rock progressivo. eu pontuo dois momentos de importância para a cena. os primeiros recife lo-fi, que fizeram o pessoal se conhecer e gravar mais junto; e o festival o.n.i, que teve uma frente de apoio grande do blog outros criticos. carlos gomes vinha sendo principal responsável por essa movimentação nas ações dele ao longo de 2011 e 2012. não podemos esquecer disso. com o lance da matéria do globo rolou uma apropriação da cena pela imprensa, que claro não só não se aprofundou como também nao recebeu informações da abrangencia do grupo. entre erros e acertos acho que a tendência é cada vez novos artistas surjam à medida que a poeira baixa. um deles é o petrônio.
    • Gravações do novo álbum "Almejão"
  • - Mesmo você sendo um dos nomes de destaque entre os próprios músicos da cidade e com um público bastante fiel, nunca rolou convite para o Abril Pro Rock e RecBeat. Como você vê isso?
  • Matheus Mota
    Matheus Mota  sinceramente não sei. sempre frequentei esses festivais e gosto do poder de agregar publico grande que eles têm. acho que eu nao estive na agenda estética deles, não era o momento pra ELES. nao tem nada a ver com imaturidade ou 'não comunicar'. em 2013 o nosso grupo era, dos amadores, o mais amarrado e pronto para fazer um bom show em qualquer oportunidade que nos dessem. ralaríamos um pouco pra um show grande, mas iria rolar. talvez esses festivais formadores de opinião devessem resgatar um costume histórico de recife de abrir para o publico uma música atrelada à nao-normalização, à pesquisa e à crítica, seja ela política/social ou irônica. vejo um decaimento por conta de quererem formatos já fechados e de grupos que ao meu ver às vezes não estão muito preparados pra mostrar algo interessante. a reclamação do publico que curte rock, por exemplo, não é coisa de doido.

  • - Como foi o processo de gravação do seu segundo disco lançado recentemente, o "Almejão"?
  • Matheus Mota
    Matheus Mota  ele foi gravado em recife e sao paulo entre meados de 2013 e meados de 2014. toquei a maioria dos instrumentos e o disco teve participações de fred lyra, rodrigo padrão e henrique correia nas guitarras em 3 faixas; luciano emerson leite nos saxofones, clarinetes e algumas flautas; aline borba nas flautas; aninha martins no vocal de uma faixa, piro bairiano no violão e viola caipira em duas faixas. nao poupei esforços pra gravar tudo o que eu queria, um disco com tratamento de sopros em algumas faixas. diferentemente do desenho, que gastei 60 reais no estudio proclo, o almejão foi um disco 100% free. gravei vocais no estudio da AESO Barros Melo e os sopros na pé de cachimbo, home estudio de dmingus. 'almejão' é uma expressao do meu amigo caio muller, de sao paulo, referente a um cara que almeja muito. mas é algo como determinação fora-da-realidade. voce se cria à partir das suas metas, sem necessariamente ter experiencia nem capacidade em nada. é diferente de 'pretensioso', onde o cara simplesmente não se esforça pra atingir a qualidade das ações.

Recife Lo-fi Volume IV